quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

The road to Guantanamo. Dir. Michael Winterbottom. 2006


Setembro de 2001. Quatro jovens ingleses de ascendência paquistanesa partem ao Oriente Médio para um casamento. Em Karachi, uma cidade do Paquistão, ouvem nas mesquitas discursos inflamados de repúdio ao imperialismo Norte Americano e sensibilizados atravessam a fronteira com o Afeganistão para ajudar as pessoas mais necessitadas. Em Cabul, tentam regressar ao Afeganistão, pois os ataques americanos se intensificam, mas no caminho acabam num dos últimos redutos do Talibã. São levados a Kandahar, mas no caminho são surpreendidos por um bombardeio que destrói a cidade. Capturados pela Aliança do Norte são entregues aos americanos.

De uma forma muito crítica e nem um pouco panfletária o diretor Michael Winterbottom denúncia não só um fato pontual, como o tratamento de presos de guerra – e no caso, inocentes civis – mas também o combate ideológico entre o “bem” e o “mal” nas figuras de G. W. Bush x Osama Bin Laden, EUA x Oriente Médio, cristãos x islâmicos, ocidente x oriente. Esse é o ponto forte do documentário: a imparcialidade. As imagens que compõe a narrativa formam um retrato bastante nítido de um comportamento político de dominação que beira um autismo incapaz de compreender aquilo que se apresenta como sendo o “externo”.

A figura do “outro” deve ser denegrida a todo custo porque o “outro” representa um risco a minha própria existência. O “outro” é um risco aos “bons” modos e ao “progresso”. A política se reveste de religião, no discurso resplandecente de Bush “Deus” tem sua glória exaltada, e do outro lado está “Alá”. É irônico que a guerra entre os deuses tenha tantas implicações econômicas.

Enfim, a guerra do bem contra o “eixo do mal” não é uma guerra de religião. Não se trata de convicções religiosas em jogo, mas o que é extraído da religião é apenas um detalhe que faz muito efeito: o fundamentalismo, a intolerância. Dois deuses não podem dividir o mesmo mundo. Por essa razão o outro lado deve ser destruído para o bem do progresso e da economia mundial. Tudo isso é definitivamente muito irônico!

É chocante que o filme continue se repetindo nesse exato momento em Guantánamo.

Site oficial

Trailler

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

C.R.A.Z.Y. Dir. Jean-Marc Vallée. 2005.

Zachary (Marc-André Grondin) nasceu no dia 25 de Dezembro de 1960 e sua mãe (Danielle Proulx) acredita que ele, por ter nascido na data que marca liturgicamente o aniversário de Jesus Cristo, tem algum “dom” divino, um suposto poder sobrenatural de cura. Afora todas as superstições colocadas, desde a infância, na sua cabeça por sua mãe, Zachary percebe em sua vida muitas diferenças na sua sexualidade em relação aos outros meninos de sua idade. Sendo o quarto filhos de cinco irmãos, não encontra espaço para viver uma experiência livre de amadurecimento e de formação de seu próprio caráter, pois um ranço de dogmatismo moral rege a opinião dos membros de sua casa.

A sinceridade da descoberta sexual de Zachary é mostrada de uma forma muito natural pelo diretor canadense Jean-Marc Vallée. Em meio aos conflitos familiares, os preconceitos de seu pai (Michel Côté), a proteção de sua mãe e os inconvenientes atritos com seus irmãos, Zachary se afirma na sua busca de identidade. A trilha sonora do filme auxilia o espectador a acompanhar esse movimento do personagem que migra de uma rigidez moral e uma ortodoxia religiosa representada por seu pai e por sua mãe para uma zona obscura de formação de sua subjetividade, porém livre.

C.R.A.Z.Y é um filme com um rítimo incrível. Cores fortes, diálogos rápidos e precisos, cenas econômicas e personagens dinâmicos fazem o filme ser bastante convencional, porém dotado de uma delicadeza, um cuidado, que tornam o drama do processo de subjetivação de Zachary bastante envolvente e familiar. Para o termo “convencional” que usei aqui, resgato uma frase do próprio Zachary: É muito difícil ser convencional. Porque é muito difícil ser aceito, isto é, verdadeiramente aceito. É muito difícil ter falhas. Ser perfeito não é esforço nenhum – e quem não quer se esforçar é viadinho.


Site oficial do filme

Assista ao Trailler:


segunda-feira, 20 de novembro de 2006

O ano que meus pais saíram de férias. Dir. Cão Hamburger. 2006


A ditadura militar brasileira está em seu ápice. É 1970 e o pequeno Mauro (Michel Joelsas), um mineirinho de 12 anos, vê-se diante de uma nova situação que exige dele um amadurecimento rápido e necessário. Os pais de Mauro, Bia (Simone Spoladore) e Daniel (Eduardo Moreira), por manifestarem-se politicamente na esquerda, são obrigados a fugir do país e deixam o filho em frente a casa do avô paterno, Mótel (Paulo Autran). No entanto, horas antes da chegado do menino, Mótel morre de um ataque cardíaco e Shlomo (Germano Haiut), um velho judeu tradicionalista e arrogante, pega o menino para criar em seu apartamento.

O convívio entre Mauro e Shlomo não é nada fácil, a aspereza de velho e a revolta do menino que não entende a partida dos pais geram uma relação crítica e conflituosa entre os dois. Mauro deve aceitar os complexos hábitos de um judeu arcado pelo tempo, Shlomo, por sua vez, deve compreender a angústia pela qual passa o menino, que teme não ver mais os pais e não entende o que acontece.

Em Mauro, a esperança do regresso dos pais se mistura e se confunde com a esperança de ver a seleção brasileira campeã na copa do mundo de futebol de 1970. Um sentimento particular cindido com um sentimento coletivo. O garoto deve se adaptar a uma nova vida, novos amigos, uma nova casa... Seus ouvidos se aguçam na percepção de qualquer veículo que passa na rua da casa onde ele está, sempre na esperança que o mesmo fusca azul no qual chegou, o leve novamente junto para com seus pais.

Cão Hamburger, conhecido por dirigir o seriado infantil “Castelo Rá-Tim-Bum”, mostra, com refinada sensibilidade, a visão de uma criança que vive no interior da fase mais cruel da ditadura militar e sente, de forma direta, suas conseqüências na pele sem mesmo saber o que está passando com seu país. Mostrando a dor real de um menino, a ausência dos pais, “O ano que meus pais saíram de férias” é um filme que tem uma abordagem diferente desse tema tão difícil, a ditadura militar, e que já é quase um clichê nesse ano em filmes como “Zuzu Angel” e “Cinemas, Aspirinas® e urubus”, esse último com seu mérito reconhecido. Cão Hamburger retratou a ditadura de uma forma original, dentro do imaginário de um garoto.

Confira o trailer:

sábado, 18 de novembro de 2006

Volver. Dir. Almodóvar . 2006


Só um grande diretor pode fazer uma junção perfeita, considerada por tantos impossível, entre drama e comédia. Volver é um filme, para aqueles que gostam de cinema, imperdível neste ano. Fatos chocantes e grotescos se mesclam com graça e descontração. Raimunda (Penélope Cruz) é uma mulher jovem, bonita e trabalhadora. Ela e sua irmã Sole (Lola Dueñas) perderam os pais num incêndio quando pequenas numa aldeia em La Mancha e foram para o subúrbio de Madri ganhar a vida. Sole é cabeleireira e vive sozinha, pois seu marido fugiu com uma de suas clientes e nunca mais mandou notícias. Raimunda tem uma filha e um marido desempregado e por essa razão acumula trabalhos esporádicos. Como se não bastasse a difícil vida na periferia de Madri, Raimunda não contava com o assassinato de seu marido Paco (Antonio de la Torre) por sua filha, Paula (Yohana Cobo), que se defendia de um estupro do próprio pai adotivo. Almodóvar mostra assim uma história cíclica, pois Paula é, biologicamente, filha e irmã de sua mãe, ela é fruto de um assédio de seu próprio avô.

A beleza do filme está nos detalhes, na composição de elementos culturais no decorrer da narrativa. Diante de uma realidade repleta de problemas Raimunda se reveste de vigor e energia para tomar conta de um restaurante de beira de estrada e conta, para isso, com a ajuda incondicional de duas amigas, aquilo que uns diriam ser providência divina, Almodóvar fez parecer surgir naturalmente através da pura amizade, sem que fosse preciso que um feixe de luz surgisse por entre as nuvens e iluminassem a protagonista.

O cômico aparece na figura do fantasma de Irene (Carmem Maura), que literalmente toma carona no carro de Sole. A mescla entre sonho e realidade, razão e loucura, confunde o expectador que em determinados momentos se identifica com o espanto de Sole que vê sua mãe retornar dos mortos, mas, de fato, ela nunca morreu. Rondando como um fantasma acha graça ao perceber a vantagem de viver num meio onde as pessoas são tão supersticiosas.

Volver é um filme que mostra o retorno de seus personagens as suas origens. Personagens que se mantiveram tanto tempo numa inércia corrosiva que os tornam incapazes de compreender suas vidas e pensar suas questões. A volta de Raimunda chega em seu ápice quando ela canta a música tema “Volver” Após tantos anos sem cantar canção alguma...

Site oficial: www.sonyclassics.com/volver/

Confira uma cena do filme:



Veja o Trailler